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5 de Agosto de 2020 às 08:07

Corrida pela vacina contra covid-19 resgata memória da Guerra Fria


A corrida pela vacina contra a covid-19 ganhou mais um capítulo nesse final de semana. Com o anúncio de que deve iniciar a vacinação em massa em outubro, a Rússia se coloca na disputa e pode alcançar um recorde histórico, caso a previsão se confirme. A vacina produzida em menor tempo até agora foi contra caxumba e levou cerca de quatro anos para ser distribuída à população.

Com centenas de pesquisas em desenvolvimento ao redor do mundo, a disputa pela vacina contra a covid-19 traz à memória a disputa pela hegemonia política e econômica durante a Guerra Fria, protagonizada pelos Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Segundo Ana Prestes, cientista política e analista internacional, a memória não é em vão. Tanto a competição na corrida espacial quanto pela vacina “envolvem desenvolvimento científico e tecnológico, inteligência, capacidade de guardar segredos industriais e capacidade de produção”. Para ela, existe uma disputa hoje muito forte por hegemonia mundial acelerada e evidenciada pela pandemia do novo coronavírus.

“Essa disputa pela vacina acaba sendo um palco da disputa geopolítica mundial hoje em que você tem essa tentativa dos Estados Unidos de se manter na postura hegemônica e uma forte aliança se consolidando com China, Rússia e o próprio Irã”, explica Ana.

Para ela, a determinação do fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas, Estados Unidos, é parte dessa questão geopolítica.

Segundo a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Morgan Ortagus, o fechamento foi determinado “para proteger a propriedade intelectual e as informações privadas norte-americanas”.

Um dia antes, procuradores estadunidenses acusaram hackers chineses de realizar uma “campanha global de invasão de computadores”, a fim de acessar estudos sobre tratamentos para a covid-19, com o apoio de Pequim.

Como resposta, o governo chinês fechou o consulado dos EUA na cidade de Chengdu 72h depois e afirmou que a “provocação unilateral” dos EUA “causou um prejuízo severo às relações dos dois países”.

“Todo mundo está interessado em montar fábricas de vacina, porque é um grande filão, porque tudo indica que no futuro nós vamos precisar cada vez mais desse tipo de segurança sanitária e imunização”, afirma Prestes.

EUA querem garantir doses

O diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos já afirmou que não quer depender de outros países para conseguir a vacina. Em 22 de julho, por US$ 1,95 bilhão (equivalente a cerca de R$ 10 bilhões) o país acertou com os laboratórios farmacêuticos Pfizer e BioNTech a compra de 100 milhões de doses, caso o medicamento seja aprovado em testes. A quantidade representa toda a capacidade de produção destes laboratórios até o final do ano.

Para 2021, os laboratórios calculam a produção de 1,3 bilhão de doses, das quais 600 milhões de doses serão vendidas aos Estados Unidos, conforme o acordo fechado. Assim, sobram 700 milhões de vacinas para todos os outros países. Com a medida, o presidente Donald Trump repete a decisão tomada no começo da pandemia de confiscar máscaras protetoras e declarar que não queria nenhum outro país “conseguindo máscara” se a própria nação não conseguisse.

5G também é alvo de disputa

A pesquisadora utiliza como exemplo dessa disputa, a tecnologia da quinta geração (5G) de internet móvel, que envolve a empresa chinesa Huawei, segunda maior companhia de telefonia móvel do mundo, à frente da norte-americana Apple e atrás da sul-coreana Samsung, que tem sido alvo de boicote por parte dos EUA.

“A questão dos americanos não é que nem eles têm medo da espionagem via Huawei; é que eles não têm a tecnologia. Essa questão da vacina parece estar indicando isso também. Eles não estão com capacidade de sair na frente nessa corrida científica e tecnologia, tanto é que as vacinas mais promissoras estão vindo da Europa, de Oxford, da China e agora surgiu essa da Rússia”, afirma.

Mais perguntas que respostas

A rapidez da Rússia no desenvolvimento da vacina não está acompanhada da divulgação de informações científicas, assim como a divulgação sobre as fases anteriores aos testes, procedimento que geralmente antecede a utilização da vacina com a população.

No sábado (1º), o ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, anunciou que o Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamalei, em Moscou, concluiu todas as fases de testes e que a vacinação em massa deve começar em outubro. Até o momento, a informação oficial é de que estão sendo reunidos os documentos necessários para realizar o registro oficial.

A informação também veio da vice-primeira-ministra da Rússia, Tatiana Golikova. No dia 29, ela afirmou que a vacina receberá aprovação regulatória ainda em agosto, depois de “outro ensaio clínico para 1.600 pessoas ser realizado”. Segundo Golikova, “o início da produção está previsto para setembro de 2020”.

“Por enquanto são muitas perguntas mesmo. Nós da área temos as mesmas perguntas que vocês. Não é que a gente não quer dar a informação, é porque ainda não tem informação mesmo. Essa informação ainda não foi divulgada nos meios científicos”, afirma a infectologista Raquel Stucchi, integrante da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Fase de testes

O que se sabe, até o momento, é que as fases foram realizadas de maneira similar às feitas pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, em parceria com a empresa farmacêutica global AstraZeneca, da qual o Brasil faz parte na fase de testes.

Ela ressalta a importância de a Rússia divulgar todas as etapas anteriores, “porque afinal nós temos uma emergência de saúde internacional, então, é um dado que interessa a todos”.

De qualquer maneira, Stucchi reforça que ainda não existe uma vacina e que não há perspectiva desse cenário mudar até o fim do ano. Mesmo que a vacina russa se concretize, existem os processos regulatórios e a ordem de prioridade na distribuição.

“Enquanto a gente não vacina e não tem remédio, as pessoas têm de manter o distanciamento social, o uso das máscaras, a higienização das mãos. Ainda não é momento de fazer festa, de encontrar os amigos, de visitar as famílias”, alerta Stucchi.

Onde está o Brasil nessa disputa?

No dia 20 de julho, a CoronaVac, vacina chinesa para a covid-19, chegou do laboratório chinês Sinovac Biotech para a realização de testes por três meses, em parceria com o Instituto Butantan. A vacina produzida pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e pela AstraZeneca também está na terceira fase e deve ser testada também no Brasil pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No Paraná, um representante do governo estadual, o chefe da Casa Civil, Guto Silva, e o embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Akopov, se reuniram para pensar uma possível parceria. Na ocasião, o estado brasileiro ofereceu a estrutura do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para a produção.

“Tivemos a aprovação do embaixador e agora os protocolos do acordo serão preparados pelas equipes do Paraná e da Rússia. Em seguida será agendada uma reunião dele com o governador Carlos Massa Ratinho Junior para a finalização dessa parceria, que pode incluir, ainda, a produção de medicamentos para a doença”, informou o chefe da Casa Civil, em nota da assessoria do governo.

Conglomerados farmacêuticos

Apesar do Brasil estar se colocando como um campo de testes, isso não garante que os brasileiros sejam contemplados com as vacinas. Isso porque o domínio tecnológico está na mão de grandes conglomerados farmacêuticos.

“Mesmo que haja transferência de tecnologia, como esses contratos estão prevendo, como é que fica a nossa capacidade de produção? Por trás desses grandes conglomerados que estão se formando para distribuição de vacina, com essa fachada de ação humanitária, tem sempre aquele aspecto da recolonização, de grandes empresas que no final vão sair lucrando como grandes multinacionais de vacinas”, afirma Ana Prestes.

Consórcio Nordeste

O governador baiano e presidente do Consórcio Nordeste, Rui Costa (PT), declarou nesta segunda-feira (3), que o consórcio está em contato com Rússia e China para tratar do interesse da região nas vacinas. Em entrevista à TV Bahia, o petista disse que se reuniu com o embaixador russo na semana passada.

“Nós queremos fazer uma parceria com nossas universidades, nossos institutos, com a BahiaFarma, e também participando com a equipe da Saúde e fazendo os testes. Temos que integrar a ciência, a pesquisa. Nós temos vários institutos de pesquisa, de ciência. Temos pesquisadores aqui nas nossas universidades. E o que nós queremos, além de ter acesso à vacina, é ajudar a desenvolver a pesquisa e a ciência aqui no nosso estado, colocando em contato e integrando as equipes de baianos e baianas com as equipes internacionais que estão desenvolvendo estas vacinas”, explicou o governador.

 

Fonte: Rede Brasil Atual


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